sábado, 2 de novembro de 2019

A Bíblia e a oração pelos mortos: Teria Paulo orado por um amigo morto?

Por José Ibiapina

Neste dia de finados, diversos questionamentos costumam surgir nos meios cristãos, tais como: "para onde vamos após a morte?", "os mortos estão conscientes?", "os mortos podem interceder?", "o purgatório tem base Bíblica?" etc. Pretendemos responder a todos estes questionamentos na série de artigos que estamos preparando para o próximo ano. Hoje, porém, discorreremos sobre o modo como a Bíblia encara a oração pelos mortos.

A oração pelos mortos está descrita expressamente no Antigo Testamento, especificamente em 2Mc 12:39-45, numa passagem ocorrida há cerca de 200 anos antes da encarnação de Jesus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei. Então Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados, na esperança que poderiam ser perdoados. O sacrifício, conforme relata a própria Escritura, teve como pressuposto a forte crença na Ressurreição, sendo isto, inclusive, uma prova da evolução teológica de Israel sobre o tema, que viria a culminar com os ensinamentos de Jesus [1].

A objeção mais comum a esta passagem é a de que, diferentemente do que pensam as comunhões Católica e Ortodoxa, para as denominações surgidas a partir da Reforma Protestante o livro de 2Mc seria apócrifo. Contudo, historiadores respeitados, inclusive destas denominações, afirmam que a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento), na qual se encontrava, além de outros livros, 2Mc, era a versão utilizada pela maioria dos primeiros cristãos, sendo que diversas das citações de São Paulo ao AT parecem ser retiradas dela, conforme reconhecido pela SBB, uma das maiores editoras evangélicas do Brasil [2]

De fato, tudo leva a crer que Paulo conhecia essa passagem, pois em I Cor 15:29 ele  traça um nítido paralelo com  2Mc 12,44 --> I Cor 15:29 - "Que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitarem?" // 2Mc 12,44 - "Se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles". Tal paralelo fica ainda mais evidente quando percebemos que algumas vezes a Bíblia refere-se a Batismo como sofrimento (Mc 10:38-39; Lc 12:50) e que era comum Paulo citar 2Macabeus (cf. o paralelo entre Hb 11:35 e 2Mc 7:1-29). Parece-nos, portanto,que em I Cor 15:29 Paulo fala daqueles que oferecem oblações/oram pelos mortos, confiando na ressurreição destes.

Como se não bastasse, temos evidências bíblicas que o próprio Paulo teria orado por um morto. Em  2Tm, São Paulo, como fazia com frequência, lembra alguns eventos de suas viagens missionárias. Ao final do 1º capítulo, ele fala sobre Onesíforo, um cristão de Éfeso que ajudou o apóstolo durante a sua passagem pela cidade [3]. O tom da passagem (2Tm 1,16-18) [4] é de quem lembra com carinho um amigo que morreu. O apóstolo encerra o capítulo orando para que Deus tenha misericórdia da casa de Onesíforo e do próprio Onesíforo  "naquele Dia", ou seja, no dia do juízo, dando a entender que o amigo estava morto

A conclusão de que Onesíforo estava morto quando Paulo orou por ele é fortalecida pela constatação de que, no final da mesma carta, Paulo enumera as pessoas para quem Timóteo deveria levar os cumprimentos do apóstolo, quais sejam: "Prisca, Áquila e a família de Onesíforo" (2Tm 4:19) [5]. Enquanto os outros são citados pessoalmente, apenas a família de Onesíforo, e não o próprio, é citada. Alguns podem argumentar que Onesífero poderia estar viajando, por isso Paulo mandou que Timóteo saudasse a família dele. Contudo, tal alegação não merece prosperar, pois, já no versículo seguinte, Paulo enumera expressamente os discípulos que estavam em outras cidades, sem citar Onesíforo como sendo um deles (2Tm, 4:20) [6]

CONCLUSÕES
Em 1Cor 15:29, o Apóstolo Paulo traça um nítido paralelo com  2Mc 12,44, dando a entender que não só conhece, como também se remete à conduta de Judas Macabeus de orar pelos mortos. Isso é confirmado pelo modo como se reporta a Onesíforo, amigo pelo qual orou, ao que tudo indica, quando já estava morto. 

PS: dúvidas devem surgir sobre como essas orações poderiam beneficiar aqueles que já morreram, o que pode ser respondido, inclusive, com passagens de cartas do Apóstolo Paulo. Contudo o artigo ficaria muito longo, de modo que o tema ficará para outra oportunidade.

REFERÊNCIAS

[1] Sobre a evolução histórica do tema entre o povo de Israel, recomendamos o breve texto do padre Elílio Júnior: https://www.facebook.com/apologistas/posts/722108278272649.
[2]. Sociedade Bíblica do Brasil: https://www.sbb.org.br/a-biblia-sagrada/destaques-da-historia-da-traducao/?fbclid=IwAR0Uj_IvC_BpNGrfc7JKRy_zBn5T1vZFJiFNCexN2AmVgLA6C7AC-xKUrpE
[3] Tivemos acesso a essa análise por meio da página Papista, no Facebook: https://www.facebook.com/umpapista/posts/2404912843062529
[4] 2Tm 1,16-18 --> "O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou, e não se envergonhou das minhas cadeias. Antes, vindo ele a Roma, com muito cuidado me procurou e me achou. O Senhor lhe conceda que naquele dia ache misericórdia diante do Senhor. E, quanto me ajudou em Éfeso, melhor o sabes tu."
[5] 2Tm 4,19 -->  "Saúda a Prisca e a Áqüila, e à casa de Onesíforo".
[6]  2Tm 4,19 --> "Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto."

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