domingo, 31 de março de 2019

OPINIÃO: A banalidade do mal e a farsa da ditadura democrática

Herzog, que assassinado na prisão. Forjaram seu suicídio
Por Silvério Filho

Em meados do século XX, após a II Guerra Mundial, a filósofa alemã Hannah Arendt dedicou parte de seu trabalho ao estudo do mal sob a perspectiva política. Ela percebeu algo novo, a partir da experiência alemã; constatou que os seres humanos podem realizar ações inimagináveis, do ponto de vista da destruição e da morte, sem qualquer motivação maligna. [1]

O mal, portanto, não seria necessariamente produzido a partir de uma conduta consciente, mas poderia também sê-lo em razão de decisões políticas até bem intencionadas

A massificação das redes sociais ajuda a verificar tal constatação. Basta dar uma olhada simples nos grupos de whatsapp e em publicações do facebook. Pessoas bem intencionadas, que nós sabemos que são boas, justificando a defesa da ditadura militar brasileira, com base em argumentos dos mais absurdos. 

Primeiramente, muitos negam chamar a ditadura por ditadura, preferindo "regime". Sim, era um regime, mas um regime ditatorial. É essa a classificação que se atribui a um governo que sobe ao poder descumprindo a Constituição vigente, que censura,  tortura, mata, cassa direitos políticos e exila opositores. Não há outro nome a se aplicar. 

Outros dizem que não foi ditadura, porque seus pais nela viveram e nunca reclamaram. Ou seja, o argumento é no sentido de que "se eu conheço uma pessoa que viveu nesse período e não foi presa nem torturada, é porque o regime era bom". Esta alegação, porém, é claramente falha. Provo: a maioria dos Cubanos aprovam o regime socialista [2], então cuba não seria uma ditadura? 

Outros dizem que se não tivesse ocorrido o golpe (chamam de "revolução"), o Brasil seria uma Venezuela ou uma Cuba. É possível que fosse, mas a verdade é que não há como saber, pois trata-se apenas de uma suposição, antes da qual existe um grande "SE". Não há como prever o que ocorreria. Prova disso é que os próprios militares diziam que iriam assumir, para depois convocar novas eleições, e passaram 21 anos no poder, deixando-o apenas por pressão popular.

Outro argumento é que só eram presos os "bandidos", "terroristas", "guerrilheiros". Cabe perguntar: qual desses adjetivos se aplicariam às crianças torturadas pelo regime? [3] Nenhum! Isto é o que mais me assusta: a relativização do crime injustificável da tortura, feita por muitos populares e até por agentes políticos importantes. 

Façamos um exercício imaginário, leitor. Pense que você tem uma filha chamada Maria, que se envolve com gente perigosa. Você sabe que ela está errada, mas você continua amando-a, afinal, é sua filha. Certo dia, Maria é apreendida por forças do governo, torturada, humilhada, estuprada. Quem comandava as torturas era o militar José. Você acharia que uma pessoa que exaltasse José na frente da sua filha estaria respeitando-a, estaria agindo com caráter? Penso que você acharia que não. Pois bem, a ex-presidente Dilma Roussef sofreu todas essas torturas, comandadas pelo Coronel Brilhante Ustra, exaltado por muitos populares nas redes sociais. Não bastasse a exaltação dos populares, o atual presidente Bolsonaro exaltou o torturador da ex-presidente na votação de abertura do impeachment, chamando-o de o "terror de Dilma Roussef" [3], que foi torturada e estuprada. É absurdo que os cidadãos vejam isso como normal, ou pior, como manifestação positiva de caráter!

Diante da banalidade do mal que toma as redes por meio da massificação, não podemos ficar em silêncio. Temos que falar do Ato Institucional n.º 5 e seus absurdos jurídicos; temos que falar sobre à censura a artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Milton Nascimento, Geraldo Vandré e tantos outros; não podemos deixar que prevaleça o falso entendimento de que teríamos vivido uma democracia durante o regime ditatorial militar. É isso ou aceitar a banalidade do mal. E a história nos mostra para onde vamos quando optamos por esse tipo de aceitação. 

Diria Bertold Brecht:
Agora estão me levando 
Mas já é tarde. 
Como eu não me importei com ninguém 
Ninguém se importa comigo.

Referências
[5] Do poema "Intertexto"

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