sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Tribuna do Norte publica artigo de Silvério Filho sobre Monsenhor Expedito

O jornal Tribuna do Norte publicou hoje (09) um artigo de Silvério Filho sobre o centenário de Monsenhor Expedito. A publicação foi realizada a pedido do Pastoral de Comunicação da Arquidiocese de Natal. 

Segue abaixo o artigo na íntegra, que teve algumas partes cortadas na versão publicada na Tribuna do Norte.

Monsenhor Expedito: cem anos do sacerdote-profeta do sertão potiguar

Por Silvério Alves Filho, estudante de Direito e “expeditiano”

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O Monsenhor Expedito, que se estivesse vivo completaria 100 anos neste 13 de dezembro, foi um padre potiguar que soube como poucos (pouquíssimos!) compreender as necessidades e os sofrimentos dos pobres, inclusive carregando também para si tais dores. Conforme destacado pelo Arcebispo de Natal, Dom Jaime, o padre Expedito foi um indivíduo ímpar, que caminhou entre os tipos ideais weberianos do sacerdote e do profeta.

Em passagem marcante da obra "Pelos Caminhos do Potengi (2ª ed., 2013, p. 23), o monsenhor relata que mudou sua forma de encarar a pregação do Evangelho na seca de 53, quando, juntamente com outros cinco padres, presenciou um “formigueiro humano” de cassacos, trabalhando na construção do açude público 'Pataxó'. Lá, um cassaco anônimo, vendo o grupo de padres, foi na direção dele e suplicou: “Seu vigário, nos tire desta escravidão, pelo amor de Deus”. Aquela situação drástica o fez lembrar das palavras de Castro Alves, em “Navio Negreiro”: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me Vós, Senhor Deus,/ Se é loucura, se é verdade, /Tanto horror perante os céus!”. Daí em diante, percebeu, definitivamente, que não podia rejeitar a súplica de um pobre, nem desviar dos indigentes seu olhar (Eclo 4,4).

Revestindo-se da misericórdia do Nosso Senhor Jesus Cristo, Monsenhor Expedito, além de sacerdote, passou a ser também o profeta daquele povo. A  título de exemplo, realizou, na Semana Santa de 58, a primeira Coleta da Fraternidade, embrião da Campanha da Fraternidade, hoje de nível nacional; instalou escolas radiofônicas e comunidades eclesiais de base, para alfabetizar e evangelizar as populações carentes; promoveu seminários de educação política, explicando em linguagem simples a legislação eleitoral; fundou o sindicato rural local, para que os trabalhadores pudessem buscar seus direitos; construiu, com ajuda das Irmãs da Divina Providência, a “Cisterna da Paróquia”, para distribuir água para a população pobre...

Este trabalho pastoral ficou conhecido internacionalmente, a ponto de o padre José Marins (1965, p.11), guardada as devidas proporções, afirmar que “ir a Natal sem conhecer Monsenhor Expedito era quase como ir a Roma e não ver o Papa”. Para conhecer estas experiências, vieram a São Paulo do Potengi, dentre outros, o Padre François Houtart, sociólogo de renome internacional; Pe. Emile Pin, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma; Pe. Eugênio Collard, de Lovaina; Prof. Eurico Van Roosemalen, da Holanda; Luís Carlos Mancini; Pe. Tiago Cloin, Secretário Geral da Conferência dos Religiosos do Brasil; o secretário-geral da CNBB, a televisão americana CBS (MARINS, 1965, p. 116).

Mesmo após os 70 anos, padre Expedito não cansou de lutar pelo seu povo, passando a dedicar os últimos anos de sua vida à "cruzada" para levar água de qualidade para o sertão do RN.

Como consequência das audiências públicas por ele impulsionadas, com o apoio da Arquidiocese de Natal, foi promulgada a lei estadual 7.029/97, que instituía a Adutora Agreste/Trairi/Potengi, dispondo para esta o nome de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, em sua homenagem. Inaugurada em 1999, hoje suas  águas banham pelo menos 30 municípios e 271 comunidades.

Quase como Moisés, que guiou seu povo até a Terra Prometida, mas não viveu suas benesses, o pároco de São Paulo do Potengi não teve muito tempo para vivenciar a vinda da água doce, tendo falecido em 16 de Janeiro de 2000, há 16 anos.

Mas ele não precisava vivenciar a água doce. Não era por si que lutava, mas pelo seu povo. Lutara o bom combate do sacerdócio. Sua profecia estava cumprida; sua promessa, efetivada. Foi-se tranquilo para o lado de Deus, consoante escreve no final do último capítulo de "Pelos Caminho do Potengi", intitulado "Doente de querer bem": "Quando Deus me chamar, partirei mais maneiro do que quando aqui cheguei; irei 'escoteiro', como dizem os tropeiros, sem nenhuma preocupação material. A Jesus sejam dadas toda honra e toda glória. Amém." 

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